terça-feira, 20 de maio de 2008

A lei que comprova a lei

Como era de se esperar, taí: fiquei cerca de 20 dias sem postar nada. E não senti falta. Diferente dos possíveis vícios da humanidade, cigarro, bebida, punheta, novela e chocolate, "blogar" é daqueles que eu simplesmente não entendo a necessidade. Vejo gente postando loucamente, diariamente, algumas mais de uma vez ao dia... Com fotos, citações, links... Gente, vamos arrumar um emprego, ler um livro, sei lá. Minha vida é ok, nem mais, nem menos divertida que a média do povo por aí, e eu também não faço feio ao escrever. Só não sinto essa necessidade doentia que os blogueiros em geral têm de expôr, de comentar. Aliás, chega de falar dos filmes que baixei na Internet.

Quero falar hoje sobre a porra da morte da porra da Isabella Nardoni. Quem me conhece sabe que eu já falei minha opinião sobre o acontecido na roda de bar, no grupo de e-mails, até nas reuniões de família. Talvez isso explique porque eu NÃO SINTA a necessidade incrível de falar, aqui, da mesma coisa. Mas, se não for isso, vou falar do que comi no café da manhã, ou do filme do Homem de Ferro. Assim...

Pai e madrasta matam acidentalmente/premeditadamente a pimpolhinha fofinha de 5 anos, e jogam do sexto andar o corpo, ou a moribunda. Ok, ok, trágico.

Dias depois, mais de 1000 pessoas postam scraps no Orkut da mãe dando solidariedade pela perda. Donde tiramos que:

Primeiro, mais de 1000 pessoas que devem ter seus próprios problemas, de filho drogado a prestação vencida de mais de três meses das Casas Bahia, parando o que estão fazendo para descobrir o nome da mamãe Nardoni.

Segundo, mais de 1000 pessoas que devem ter seus próprios problemas, de não conseguir se alfabetizar a não conseguir caber numa calça tamanho 60, se mobilizando para descobrir o Orkut da mamãe Nardoni.

Terceiro, mais de 1000 pessoas que devem ter seus próprios problemas, de desemprego crônico a marido infiel, se esforçando para escrever uma mensagem de solidariedade tocante para a mamãe Nardoni.

Achei que, nesse país de padres voadores e cartões corporativos que viram tudo piada, ALGUMA COMUNIDADE do Orkut teria sacaneado a menina. Quando olhei, isso há uns 15 dias, existiam mais de 1000 comunidades sobre Isabella Nardoni, NENHUMA DELAS tirando um barato da situação. Todas eram a mesma babação de ovo, "Isabellinha, nosso anjo, vai deixar saudade" e o escambau. FORA, é claro, que um porrilhão de idiotas mudou o próprio nick pra "de luto por Isabella Nardoni".

A média de membros das comunidades era, vamos chutar, cerca de 1000 pessoas. Conta rápida, 1000x1000, um milhão. E olhem que eu estou sendo BEM modesto, que provavelmente o número seja maior que esse, embora - incrivelmente - muitas pessoas participem de várias comunidades IGUAIS sobre o assunto simultaneamente.

Enfim, trabalhemos com esse número. Um milhão de imbecis.

Turma, quantas crianças de 5 anos vocês acham que morrem por dia? Pra agradar mesmo os chatos conspiratórios de costume, NA CLASSE MÉDIA, quantos? Morre uma porrada de gente o tempo todo, e vocês, de repente, acham que tudo parou, porque "o nosso anjinho" se foi. De repente, ninguém mais fala de nada minimamente macrocósmico, tipo política, segurança, educação, até mesmo a porra da Olimpíada ficou em segundo plano. Mesmo umas semanas depois, com o furacão que detonou Mianmar e o terremoto que trouxe abaixo a China, NINGUÉM PARA DE FALAR DESSA MENINA. Nem os jornais sérios e sisudos.

Por isso que a porra do Big Brother faz sucesso. Num mundo onde um milhão de pessoas foi deixar scrap no Orkut da mamãe Nardoni, não é nada estranho que uma quantidade semelhante ligue semanalmente pra dizer quem dos anormais da mansão vai ter que voltar pro canil. Cuidar da vida alheia é esporte nacional. O Ronaldinho ter gastado seus milhões com um traveco - aliás, três travecos, feios, ainda por cima - ocupa mais as manchetes e as rodinhas que o terceiro mandato que esse toco de árvore que nos governa está subliminarmente nos empurrando (entre outras atrocidades de interesse nacional que infelizmente não atraem interesse algum na nação)

Sei lá. Eu até entenderia, com um pouco de esforço, que todo mundo tá projetando, introjetando, ou qualquer outra gíria psicanalítica, o choque de imaginar que criancinhas de 5 anos morrem tanto quanto o Raul Cortez. Mas daí ao povo sair por aí dizendo que "ela vai deixar um vazio na nossa vida"?

Gente, aos 5 anos, nem o Macaulay Culkin deixou um vazio na vida de um milhão de pessoas.

Fora que, se fosse anjo, que voasse.

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